Luzes do Alhambra

A história da Mouraria só começa a emergir do território nebuloso das lendas para o mundo objetivo da documentação com a queda de Granada em 1492, mais de 70 anos depois do descobrimento e 60 da povoação. O bairro recebeu grande influxo de imigrantes vindos da Espanha tanto por opção quanto por acidente, já que diversos navios de emigrantes que se dirigiam ao Norte da África naufragaram ou erraram o curso e aportaram na Ilha. Muitos dos refugiados, encantados com as belezas naturais da ilha e a natureza cordial, hospitaleira e tolerante dos moradores resolveu fixar residência em definitivo por ali.
Esta imigração mudou um certo tanto o perfil do bairro, antes habitado por guerreiros, militares, degredados, cativos e aventureiros mouros de todo tipo, agora torna-se um centro de alta cultura, legatária das melhores tradições andaluzes. Uma das mais tradicionais imagens da Mouraria que mostra um guerreiro mouro empunhando não armas, mas um Qanun, a guitarra mourisca, e recitando zajals tem sua origem nesta época e demonstra a transição da época heróica à áurea.
Curiosamente os Banu Hilal, na época tendo como patriarca Yusef ibn Yahya - filho de Yahya e Kharidat, não se opuseram a esta transformação e tão rapidamente se transformou de caudilho em nobre que já na geração seguinte seu filho Abu Harun tinha suas origens aristocráticas cantadas pelos poetas da pequena corte mourisca na qual se transformou a Casa da Pérola, chamada pelos trovadores andalusis, habituais comensais do mecenato hilali, de "Pequeno Alhambra", o que comprova a tese de ibn Khaldun sobre as reputações.
Alguimas das mais belas obras arquitetônicas da Mouraria foram construídas neste período de civilização, como os Jardins da Mouraria, o Porto dos Mouros, A Biblioteca Al-Farabi, o Farol Ibn Majid, este último inaugurado pelo próprio Vasco da Gama que assim homenageou seu navegador. Ação que demosntra o excelente grau de convivência que existia entre cristãos portugueses e muçulmanos andaluzes e algarves. Comenta-se que o próprio Comendador da Ordem de Cristo no arquipélago usualmente pedia conselhos - porque apesar de agora serem cidadãos paçificos ainda guardavam muito da antiga experiência militar - e até ajuda financeira a alguns mouros de destaque.
Esta boa convivência fez até com que um dos Banu Hilal - Ayub ibn Harun se casasse com a sobrinha neta de um dos últimos comandantes de um regimento de turcopolos que haviam servido aos Templários. Mas há fortes indícios que não havia nestas estranhas alianças nenhum tipo de oportunismo político ou coisa do tipo, mas sim uma perspectiva política geral que contrapunha os antigos laços de amizade e parentesco com os "cabeças-vermelhas" safavídas em expansão na Pérsia e os otomanos com os quais parece haver um antigo desentendimento. Estes fatos foram muito mencionados pelos historiadores que dizem que os Banu Hilal eram agentes fatímidas desde o início, mas como foi dito fica apenas no terreno da suposição.
A vida sedentária e cercada de luxo na Mouraria, contudo, não agradou a muitos moradores, ainda mais entre os Banu Hilal dos ramos mais distantes do "Pequeno Alhambra" para os quais aquele era um estilo de vida corrupto e decadente. Muitos deles acabaram viajando pelo mundo e espalhando a estirpe por cantos variados, outros ficaram e se dedicaram ao lucrativo negócio da pirataria. Paradoxalmente a maior parte dos Banu Hilal conhecidos hoje, inclusive as "ovelhas brancas da família" - como são conhecidos os ramos cristãos - descende justamente deste ramo de piratas e aventureiros já que a parte rica da família foi atingida em cheio na Inquisição durante o dramático período da "União Ibérica".
Convertidos a força, degradados para as colônias distantes, expropriados, o segmento da Mouraria que havia gozado os grandes momentos de sua breve fase aristocrática praticamente desapareceram com a perseguição da Inquisição. Já os piratas e aventureiros floresceram com a necessidade de soldados experientes e o início das rotas de galeões que traziam cargas de ouro e prata do Novo Mundo. São eles que escrevem o próximo capítulo da História da Mouraria.
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